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Page history last edited by Paulo Medeiros 3 years, 1 month ago

Refletindo a Inclusão

 

Alunos com necessidades especiais tentaram entrar em minha vida profissional por mais de uma vez, mas por muito tempo eu me senti não apenas despreparado para trabalhar com eles - eu não experimentava qualquer desejo de tê-los na sala de aula. Não tenho qualquer constrangimento em fazer tais confissões, pois sou bastante adulto e maduro para AINDA necessitar de aprovação alheia. O que, a bem da verdade, sinto, é que certamente machuquei a cada aluno que expressei desconforto ou rejeição em com eles trabalhar. E esta certeza me faz desejar encontrá-los um dia e poder dizer: "Desculpe-me; eu era um completo 'bossal', estúpido o suficiente para não compreender que eu talvez precisasse mais de vocês do que o contrário, pois todos encontraram professores melhores, enquanto eu perdi a oportunidade de crescimento interior."

 

Quase vinte anos se passaram e fui para o outro lado do mundo. Estudei durante cerca de dois anos nas universidades de Hiroshima e Shimane. Meu orientador, Hada Sensei, certo dia levou-me para conhecer uma escola pública (97% dos alunos japoneses estão matriculados no ensino público) na qual se podia vivenciar experiências de inclusão. Um aluno com paralisia cerebral assistia aulas em sua turma de 4ª série. A seu lado, uma professora exclusiva para auxiliá-lo sempre que necessário. Pedi para juntar-me aos dois. Fiquei enternecido com a interação da professora com o aluno, o qual tinha severas limitações de movimentos nos membros superiores, assim como nos membros inferiores, ainda que um pouco mais discreto. A todo instante ele era por ela e pelo professor da turma estimulado a participar, interagir, procurar responder questionamentos e fazer indagações. Foi nesse ínterim que pude, de modo bem simples, relacionar-me por cerca de uma tarde com ele. Foi-me permitido auxiliá-lo no traçado de letras com pincel (aula de caligrafia), pois para ele era insólito estar ao lado de um estrangeiro que escrevia alguns kanjis (um dos alfabetos japoneses).

 

De todo modo, para aquele aluno, o momento que foi mais significativo com um estrangeiro (a expressão em seus olhos não deixou dúvidas) foi justamente quando eu propus a inversão dos papéis, ou seja, que ele me ensinasse a escrita de palavras a partir de objetos que fôssemos selecionando do ambiente ao redor. Primeiramente ele me ensinava o som da palavra (honestamente, sua fala era um pouco mais que um grunhido aos meus desacostumados ouvidos), para em seguida perguntar-me como dizer a mesma coisa em português e inglês. Depois ele pegava no pincel e fazia o traçado do kanji, mostrando qual sequência as linhas deveriam obedecer. Entregava-me o pincel e pedia que eu repetisse, mostrando-se bastante rígido, pois não me deixava fazer qualquer kanji com o menor desvio de qualquer traço.

 

Para mim, foi igualmente especial auxiliá-lo a alimentar-se, pois era bastante difícil para ele levar o alimento à boca. Assim, eu usava um par de hashis (os pauzinhos usados em lugar dos talheres) e servia-o com a merenda trazida pelos colegas responsáveis. Aliás, o professor da turma contou-me que estes alunos responsáveis por buscar a merenda na cozinha e servi-la nos pratos para os demais colegas trocam toda a semana, o que incluia este aluno mais que especial. Como para ele seria quase impossível servir os pratos, ele empurrava o carrinho até a mesa dos colegas, e se mostrava, segundo o professor, muito feliz em sentir-se útil e incluído.

 

Finalmente, na hora de despedir-me da turma, foi justamente este aluno quem me conduziu até a porta da sala, acompanhando-me pelo corredor. Ao despedir-se fez uma reverência demorada, o que no Japão significa que eu conquistara seu respeito. Não deixa de ser inesperado o fato de que eu precisei residir do outro lado do Planeta para ter a chance de trabalhar com essas maravilhosas crianças com necessidades especiais.

 

Hiroshima University

Comments (3)

Daniela said

at 5:50 pm on Apr 5, 2009

Boa tarde Paulo,
Li com muito cuidado teu relato e já me posiciono, de início, achando que você foi muito duro consigo mesmo na primeira parte do texto. O fato de refletir sobre essas tentativas dos alunos com necessidades educativas especiais que tentaram entrar nas suas turmas e, por conseqüência, na sua vida e os efeitos destas tentativas na sua prática docente atual são significativos e demonstram sua seriedade e amadurecimento profissional. Achei muito interessante a experiência da educação nas cidades de Hiroshima e Shimane e tenho certeza que foi um momento muito produtivo para você e para seu aluno. Gostei da apresentação de seu dossiê, do título que deu para ele e das cores. Acho que você poderá contribuir bastante com os colegas e produzir um ótimo material.
Boa semana.
Abçs,
Daniela Corte REal

Daniela said

at 12:38 pm on Jun 20, 2009

Boa tarde Paulo,

Gostei da indicação do link para as necessidades educaionais especiais. Você vai conduzindo o leitor através de seu texto com maestria.
Parabéns!
Abçs,
Daniela

Daniela said

at 9:43 pm on Jun 28, 2009

Boa noite Paulo,

Deixei um comentário final em tuas conclusões.
Ótimo trabalho.
Abçs,
Daniela

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